O Pluralismo é uma das principais marcas do início deste novo milênio. Porém, não é nada novo. Sociedades pluralistas existiram também em outras épocas e o próprio apóstolo Paulo viveu em contextos assim. O que certamente é novo para os nossos dias é a abrangência deste pluralismo em termos geográficos e quanto ao seu conteúdo. Pelo processo da Globalização, o Pluralismo alcança as mais diversas sociedades do planeta e leva as filosofias e as seitas mais exóticas aos centros estratégicos do mundo. O conceito geral em muitas sociedades hoje é que “tudo é certo e válido, se você o considera assim”.”Cada um é salvo por sua religião”.”Não há verdades absolutas, tudo depende do seu ponto de vista”. Com forte base no Humanismo e no Existencialismo, o pluralismo encontra no ser humano sua referência normativa e no empirismo seu conceito de verdade.O resultado é um perigoso Relativismo onde não há normas absolutas, verdades eternas ou princípios supra-culturais.
A filosofia pluralista, fortemente difundida também em nosso país, afeta nossa compreensão de Cristo. Por isso gostaria de brevemente reafirmar algumas -verdades sobre quem Ele é.
1. Jesus Cristo como Deus — sua natureza divina.
A primeira constatação que as Escrituras fazem é que Jesus Cristo é Deus. Isto é claramente expresso pelo evangelista João em seu prólogo (Jo 1:1- 14). A divindade de Jesus significa que ele integra a Trindade Divina,- sendo chamado de Filho de Deus.
Jesus se identifica com o Pai na expressão Eu Sou, freqüentemente citada no mesmo evangelho de João e nas epístolas do mesmo autor(por exemplo 8:19 e 1Jo 8:28). Mateus reproduz o reconhecimento desta realidade por parte dos discípulos quando perguntados sobre quem Ele era (Mt 16:15-16).
O apóstolo Paulo diz que a ressurreição prova que suas reivindicações de divindade são corretas (Rm 1:4). Sendo um com o Pai, Jesus Cristo revela de forma perfeita quem Deus é. (Jo 1:18; Hb 1:2,3).
Jesus também é apresentado como Criador, eterno e presente antes dos primórdios da criação tornando se o - agente da ação criadora de Deus (Gn 1:18; Jo 1:3-4; Cl 1:16).
Mesmo em sua forma terrena, Jesus conserva sua divindade. Ele é concebido de forma sobrenatural para não ter o peso da herança pecaminosa de Adão. (Lc 1:35). Deixa sua glória e escolhe se limitar em sua majestade e glória, mas não perde sua divindade (Fp 2:6-11). Jesus é, portanto, o representante legítimo de Deus Pai, sendo por ele enviado (Jo 20:21) e realizando as suas obras.
2. Jesus Cristo como Homem – sua natureza humana
O outro aspecto importante é a natureza humana de Jesus, designada pela expressão Filho do Homem. A expressão inicialmente vétero-testamentária (Dn 7:14-15) é uma das principais alusões ao Messias-(ungido para rei) prometido. Trata-se de uma encarnação completa. (Jo 1:14) Jesus é um ser humano em sua totalidade, passando pelas distintas fases que um homem normalmente passa, porém sem se contaminar com o pecado. Sofreu as mesmas pressões e tentações, identificando-se inteiramente com a realidade da humanidade. Jesus é o protótipo do verdadeiro ser humano conforme a imagem de Deus (lTm 2:5).
Sendo perfeitamente homem, Jesus pôde cumprir o papel do necessário sacrifício da humanidade, suficiente e válido, e tomar nosso lugar na cruz, pagando por nossos pecados. Precisava ser um de “nós”, sem pecado e perfeito, para servir de sacrifício pela expiação dos pecados. Somente Jesus tinha as qualificações necessárias.
Ao inaugurar uma nova raça, um novo povo, Jesus é considerado o Segundo Adão (1Co 15:22, 1Pe 2:9). É um retorno a primeira intenção criadora de Deus, com um relacionamento restabelecido entre o Criador e a criatura. Quem melhor para reconciliar Deus e o ser humano senão aquele que conhece ambos os lados, sendo tanto divino como humano ao mesmo tempo?
3. Jesus Cristo como Salvador — A Missão de Cristo
Há um propósito muito claro na vinda de Jesus ao mundo: a salvação do ser humano. As tentativas de reconciliação à distância, usando profetas, reis e sacerdotes não havia surtido o efeito desejado. Além disso, havia a necessária morte vicária que já mencionamos.
Jesus Cristo se apresenta como o caminho, a verdade e a vida. Ninguém tem acesso ao Pai senão por intermédio dele (Jo 14:6; 1Jo 4:14; Jo 4:42; Jo 3:16). Ele é o único Salvador. E tanto Pedro como Paulo confirmam que não há outro meio de salvação nem outro mediador entre Deus e o homem (At 4:12; lTm 2:5-6).
O apóstolo Paulo elabora a teologia da fé em Cristo, requisito único e suficiente para ser salvo (Rm 3:21-24; 10:9-15). Isto significa também que aquele que não aceitar a Jesus Cristo como seu Salvador e Senhor não será salvo (Jo 8:24), sendo que ninguém tem desculpas diante de Deus (Rm 1.18-21). Deus não condena a ninguém, mas a escolha é livre e as conseqüências coerentes a esta escolha.
4. Jesus Cristo como Senhor e Rei
O clímax da apresentação de Jesus Cristo no Novo Testamento é a sua exaltação e glorificação. (Fp 2:5-11; Ap 5:9-14; 7:9-12; Mt 28:18-20). Seu senhorio é completo, seu poder total e seu reinado eterno. O reino de Deus, apregoado por Jesus, tornou-se real com sua vinda, mas ainda surgirá de forma completa com seu regresso. Um dia todos terão que reconhecê-lo como Senhor. Feliz aquele que já o fez por livre e espontânea vontade.
Conclusão
Diante destas características de Jesus Cristo, como é possível compará-lo a outros lideres religiosos da história?
Nenhum deles chegou a reivindicações parecidas com Cristo. Alguns tentaram sim diminuir e menosprezar a. figura de Cristo, mas sem propor alternativas plausíveis para substituí-lo.
Tentei explicar isto para Maide. Nos despedimos no aeroporto de Guarulhos sem que ela tivesse confirmado se cria ou não. A singularidade de Cristo é sem dúvida um divisor de águas, uma mensagem radical que cria conflitos e fortes reações. Quem sabe pode ser visto como falta de tolerância, a palavra da moda no pluralismo de hoje. Porém é um Deus tolerante e amável quer tem proporcionado um caminho de volta ao Lar. Se não fosse sua graça, claramente evidenciada no envio de seu Filho, qual seria nossa esperança? Por outro lado é um Deus justo que agirá de forma coerente com a nossa própria escolha. Se não temos desejo de nos relacionarmos com ele optando por outros caminhos, de que podemos nos queixar?
Se existe algo de que não podemos abrir mão como cristãos sem colocar em risco a mensagem bíblica e a credibilidade do evangelho e a singularidade de Cristo como único Salvador e Senhor. A questão é quais são as implicações deste fato para nós como seguidores de Cristo e para a Igreja, que é o corpo de Cristo? O que significa realmente que Cristo está no trono de nossa vida?

Pr.Bertil Ekström
Diretor da Comissão
de Missões da
Aliança Evangélica Mundial
( publicado no Jornal Luz nas Trevas, pág.9 e 12, Dezembro 2007)